20.11.14

mr little jeans suburbs

Acabou.
Eu estou indo
Você ficará,

em um passado desintegrado

22.5.14

Everybody's Changing

Everybody's Changing by Keane on Grooveshark

Says, everybody's changing
And I don't know why... 

So little time
Try to understand that I'm
Trying to make a move just to stay in the game
I'm trying to stay awake and remember my name
But everybody's changing and I don't feel the same...


'Cause everybody's changing
And I don't feel right




     Tem aquela vontade de gritar, mas é sufocada pelos ouvidos que não estão presentes. Tem aquela vontade de sair correndo, mas é presa por saber que nada adiantará. Tem aqueles livros de autoajuda na estante, mas sabe que não há ajudas. Fica deitada no sofá, não quer dormir, não quer assistir nada, não quer ouvir. Já não aguenta mais pensar, mas aquele sentimento meio indefinido permanece ali corroendo algo por dentro. Poderia escrever cartas, mas não haveria destinatários, os endereços que tinha anotado em seu caderninho prescreveram, as casas permanecem vazias, seus ocupantes se perderam no tempo. Estava difícil passar por cima de todas as coisas, de todos os rostos. Já não sabia mais. Estava entorpecida de niilismo. O vazio girava em cores opacas. Pega a sua agente, procura por motivos, mas apenas vê rabiscos  do passados marcando o ano de 2007. Naquela época tinha 14 anos, um copo na mão, e sorrisos em sua volta. O refrigerante ardia em sua garganta. Eles estavam ali. A agenda marcava acontecimentos, novidades, sensações diferentes. Ela se viciou em experimentar coisas novas, mas estava tudo riscado. O tempo passou e ela se fixou em sua cadeira de lembranças, não experimentava. Apenas lembrava e guardava a vontade de novidades. Ali está aquela caixinha, mas não quer abri-la. Ficar sentada, relembrando, desejando e se remoendo parece mais fácil que levantar e colocar a cara no vento.  Quer sentir coisas novas, mas não tem forças para agir. Já não se reconhece, não sabe que concelhos dar para si. Tenta encontrar aquela garota de anos atrás, mas ela parece dormir na escuridão, não escuta. Parece distante como se fosse outra pessoa. Tornou-se outra pessoa...

17.5.14

Falta de corpos

Estava vazio por dentro
Ali a bebida não fazia efeito
Faltavam os sorrisos, os abraços, o calor humano
A bebida, com seu cubo de gelo, apenas arrepiava a memória

21.4.14

Carta de despedida...
                Essa carta é na verdade uma desculpa para a culpa que ainda não sinto mas que se, porventura vir a sentir, tenha onde me refugiar.

       
    Foi melhor para você. Eu não teria capacidade suficiente para ser forte e aguentar o seu sofrimento. Não aguentaria e não conseguiria te apoiar nas tragédias que estavam programadas para acontecer. Iniciaram o cronometro da bomba-relógio e eu tive que correr mais rápido que ela. Você não aguentaria, você iria desfalecer aos poucos como um animal aberto aos corvos. Não queria ver sua carne ser consumida aos poucos enquanto um público infeliz o assistia e o julgava. Para o seu bem, sempre fiz e faria tudo para o seu bem. Qualquer outra opção poderia causar-lhe maior sofrimento. Eu não teria capacidades. Não me considero fraca. Na verdade no momento não me considero nada, mas tenho medo de que algo me caia como um manto de tormento. Quero dizer-me que foi melhor assim. O nada é melhor que o vermelho da dor e do sangue. Agora tudo está azul, a lembrança está colorida em tom sépia. Estou tentando dobrá-la e guardá-la em uma caixinha para futuramente jogá-la em uma correnteza. Assim, apagar os tormentos, jogá-los fora e viver em um jardim de flores. Mas se caso cair-lhe a dúvida, penses que foi melhor assim. Nada é pior que o sofrimento. 
                                                                 Inicio da bomba-relógio: 21/04/14

17.4.14

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos

15.3.14

Sr. Diferente

 Aqueles que o tiveram ao seu lado, nada conseguiram concluir, tamanha era suas confusões e indecisões. Não pode argumentar em sua defesa, pois até ele era contra si mesmo. Punia-se, e aceitava as punições de outrem. Acostumou-se com as fuligens do ar, sentia-se estranho ao entrar em contato com as paisagens coloridas, como se as coisas vivas não fossem mais compatíveis com seu ritual. Em sua despedida não houveram comentários nostálgico, muitos estiveram presentes apenas por formalidades, mas seus corações não sentiam-se apertados com a vida que já não existia naquele corpo. 
 Durante muito tempo a população se assustou com seus estranhos modos de agir, era assim em todos os lugares, as pessoas tinham dificuldade de entender alguém que não agia como elas. Com o passar dos dias perderam o medo, mas não deixaram de comentar e se entreolhar quando D. passava. Seguia assim, recebendo fofoquinhas pelas costa e olhares assustado com sorrisos falsos presos no rosto. Deveria ter se acostumado com essas situações, fora assim desde que começou a dar seus primeiros passos, mas não se acostumava com o estranhamento dos outros. Muitas vezes tentou se desculpar por não ter nascido como a maioria, mas muitos acreditavam que D. poderia mudar, que tudo aquilo era apenas coisas da sua cabeça, que bastava ele querer para ser normal. Mas D. não queria ser como os outros, gostava do jeito que era, queria apenas que os outros não se importassem tanto com sua estranha forma de viver. Mas não se acostumaram. Dia após dia D. era violentado, não apenas fisicamente, mas também de forma velada. A violência era percebida pelos olhares, pelas desculpas, pelas saídas disfarçadas. Ninguém permanecia ao lado de D. Alguns eram educados demais para sair sem falar nada e inventavam desculpas esfarrapadas, outros faziam questão de demonstrar sua insatisfação, mas todos partiam pelo mesmo motivo: medo do diferente. A população não estava satisfeita com seu estranho morador. E o estranho morador já não estava contente com a população... nem consigo mesmo. Já não tinha mais forças para lutar, nem se quer para sair de sua cama. Sentia-se inútil e desprotegido. Não havia ninguém para apoiar D. Não conseguia entender o porque de tanta hostilidade apenas por ele ser diferente, era como se os outros tivessem medo de que  ele, o estranho, desequilibrasse suas tediosas vida caricatas. 
 Mas agora D. já não atrapalharia mais. Ninguém sabe ao certo - e também não fazem questão de saber- mas o estranho apareceu no meio da rua, sem vida, como uma folha de papel que se amassa e se joga na estrada. Alguém cuidou dos procedimentos, apenas porque o corpo não poderia ficar ali apodrecendo na rua. Fizeram uma cerimônia sem graça e voltaram para a casa, voltaram para cuidar de suas belas crianças. Ligaram sua tv, sentaram-se no sofá e conversaram sobre a novela.... Tudo voltava ao estado de perfeição. 

 

14.3.14

 As portas e janelas se fecham para a chuva fria que cai lá fora. Os pássaros correm, os cachorros se escondem, as pessoas somem. Lá fora fica apenas a chuva caindo sozinha, molhando a rua - agora vazia - e limpando o telhado das casas. Continua caindo, como se não percebesse a hostil recepção. As portas continuam se fechando com seus baques surdos, abafando seus moradores dentro de suas próprias angustias e mofando os pratos com as refeições esquecidas. A terra se ensopada e vira lama, como se tentasse expulsar o excesso daquela que não é bem vinda. 
  Ela afoga os pequenos insetos, atrapalha o dia a dia, e segue apenas fingindo não perceber o que acontece, apenas sorri ao ser ignorada e guarda para si os pensamentos que se derramarão ao anoitecer ensopando o lençol - já não falo mas da chuva, mas sim de Ana. Ana está sentada no braço do sofá, janelas abertas para respirar o ar molhado. Em suas finas mãos há uma xícara de café exalando sua fumaça que é levada pelo vento. Ana está sozinha. Ana também é chuva... chuva de preocupações, de culpa, de tristezas e arrependimentos. Ana é chuva que se guarda e explode a noite em lágrimas e sonhos. Olha a rua vazia, silenciosa (por dentro). Ouve os pingos que se escorrem do telhado e somem como se nunca tivessem existido. Aparecem e somem como se nunca tivessem existido... aparecem... somem... ás vozes... as cores... a chuva... o canto....os sorrisos... os amores... sumiram. Um dia estavam lá, hoje são memórias em porta retratos e mensagens - falsas - de saudades em alguma rede. Fuma seu cigarro como se quisesse se incendiar por dentro e evaporar como a fumaça que se desfaz na chuva. Abre a porta e sente o vento tentando perfurar sua pele. Aquela rua vazia, aquela chuva sozinha, aquele café aguado, aquele cigarro que se vai... Se vai, abre o portão... Encharcada, com os pés no chão, se vai... chuva por dentro... chuva por fora.... agora chuva... Se vai, descalça andando pela rua vazia...se foi.


13.3.14

 Estava tentando passar a sensação de tranquilidade. Tentava disfarçar minha culpa, esse sentimento que veio do nada. É estranho que isso venha do nada - ok eu sei que não veio do nada -, mas simplesmente não consigo entender o por que. Talvez seja esse excesso de pensar no que os outros vão pensar, assim, simplesmente não consigo nem exprimir meus sentimentos que já me sinto culpada – não quero que me vejam mal, mesmo aqueles que não quero bem. Não consigo simplesmente não me importar, pensar que aquela pessoa não faria diferença. Não gosto e me sinto culpada.
 "Vamos lá, você não vai mesmo precisar disso... pare de se culpar. Vamos, um pouco de autoajuda... você não precisa se culpar". Mas minha voz continua trêmula, tentando se disfarçar. Esforço um sorrisinho, mas este sai torto, quase como uma cara de desgosto. Ai... mais que mania de ser sincera, será que precisava de tudo isso. Ás vezes é assim, os pensamentos escorrem para os olhos e bocas, e quando vejo já estou demonstrando tudo, e me sentindo culpada por estar sendo assim... Vamos lá, você não liga não é mesmo? Vamos lá não se importe com isso... Não vai fazer diferença agora. Seja sincera, o que você sente? E o que importa se for reciproco. Feche os olhos... Repire.. Suspire... Já não importa mais.

23.2.14

Porcelana

Ela é feita de porcelana.
Sua pele trinca ao ser tocada
cortando os dedos que passeiam pelo seu corpo.
Corrói a mente...

Ela é feita de porcelana.
Sozinha, intocável
ela canta para atrair os transeuntes.
Seu olhar prende, sua pele corta, sua mente é vazia e fria.


Ela é feita de porcelana.
Pintada de vermelho. 
Presa em um rosto ingênuo
Pede ajuda, 

Ajudo.
Trinca-se.
Corta-me. 
Vira pó.

Não há nada sob meus toques.
Ela era feita de porcelana.




11.2.14

Florbela Espanca - Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca - Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Deixa cair.
Deixa que se destrua.
Deixa que tudo se acabe e vire cinzas.
Chore. Grite. Se desmanche na tempestade.
Depois que a paisagem voltar a ficar sonolenta poderemos andar tranquilamente.

O começo exige um fim.

O tempo destrói tudo.

27.1.14

Stereophonics - Violins and Tambourines

Stereophonics - Violins and Tambourines

Tempos

Agora aquele tempo está perdido, passou, não volta mais e com ele passaram também as oportunidades.
Deveria ter feito há muitos anos. Deveria ter aproveitado as sugestões e pedidos. Agora o tempo corre veloz. Cada segundo que se passa é como um martelo avisando que deveria ter feito há tempos e que as oportunidades se desmancharam como tintas jogadas na tela.
As areias que escorreram da ampulheta não poderão voltar e agora fica o coração batendo acelerado enquanto corre para resolver o atraso.
Corre
   Acelera
      Corre
         Acelera.

Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo que volte, amor....
Ainda há tempo para viver tudo que há pra viver?
Ainda podemos nos permitir?

Agora vai
Sobe no salto
e anda desiquilibradamente até aprender a andar com os outros.

19.1.14

  Uma coisa diferente. Assim, uma música, uma saia, uma blusa. Coisas diferentes para acontecimentos diferentes. Em frente ao espelho deixa de lado o batom nude e passa seu batom cor de quem vai aprontar. Retira os prendedores do cabelo e o deixa livre como se sente por dentro. Despe-se dos tormentos e veste a coragem que há muito lhe fugia. Em frente ao espelho faz promessas, coloca a sorte em sua bolsa e saí... de si.

14.1.14

"Mas nunca tinha me movido com força e rompido a rede; nunca eu à frente, comandando a batalha. Calada e sonâmbula, obedecia sempre cabisbaixa. Ás vezes emergiam pobres reações impotentes, gritos no escuro. Reagia tarde; sempre depois; reagia de forma violenta, lembrando-me, heroica e atrasada que era a protagonista da minha própria vida."
"Quieta, escuto a voz da minha mãe, eu na minha cama encolhida, as pernas dobradas quase tocando a cabeça. Quieta me encolho debaixo da árvore  e vejo. É tudo tão magro, fino, de uma transparência tão rala..." 

Fogos, Simone Greco

12.1.14

Delírios de falta

 Não era a falta dele. Não era a falta daqueles dias, das sensações, dos cheiros, dos sorrisos. Era simplesmente falta. Era uma falta em essência, disforme. Era o espectro do passado sobrevoando os novos movimentos. A saudade não tinha um objetivo, um desejo específico. Tudo soava como um chiado de um rádio mal sincronizado, impossível de ser captado e compreendido. Se estivesse descrito o que faltava, assim como nos livros de receitas, poderia calçar os sapatos e ir a luta. Mas assim, com essa falta disforme, palpitando como uma criança mimada que berra sem saber o que quer, assim não dava para caminhar.
 Assim foi ficando com aquela falta enquanto tentava beber água na esperança de se preencher. Talvez a chuva tivesse um efeito mais satisfatório. Talvez o fogo. Talvez um descanso de tudo. Talvez não fosse falta, mas sim uma garrafa cheia se derramando. Eram muitos talvez,  mas o incomodo principal era a falta de uma definição para tornar possível um conhecimento, como o das doenças em que se receita um medicamento específico para aliviar os sintomas...
 E assim passou sua noite pensando no que faltava, tentando encontrar fórmulas para se entender. Como cachorro correndo atrás do rabo, faltava achar algo para entender o que faltava. 

11.1.14

Conta-dias

 Mr Writer by Stereophonics on Grooveshark

Stereophonics - Mr. Writer


    São como conta-gotas. Sente os dias pingando, marcando "x" vermelho em seu calendário recém instalado sobre a pratilheira. Uma certa ansiedade ao olhar todos os outros dias em branco e pensar em como serão. Enquanto as gotas se vão, os livros são abertos,  a tv é ligada, o café se vai pelo ralo. Gritos na rua - sempre há gritos na rua-, palmas no portão, cachorros latindo, o relógio tictaqueando... Mais um "x".
   O sol que se levanta preguiçoso pela manhã. Os olhos que se abrem para esconder o que há muito martela por dentro. As roupas cheirando amaciante, o cheiro do café da manhã, o gosto da pasta de dente, a água do chuveiro que passa e congela pelo corpo. Sentar na cadeira e levantar-se desejando inverter os horários. 
   O portão que se abre. O carro que se vai. O semáforo que atrasa o trânsito. Buzinas. Fechadas. Batidas. Olhares. Aviões. O mesmo caminho marcado a giz. O automóvel que decora o trajeto de todo dia. Os dias que ficam estigmatizados, anos após anos. Chega. Fecha a porta. Suspira. Entra. Senta. Escreve. Suspira. Escreve. Pausa. Lanche. Escreve. Perde a criatividade. Sente-se pesada. Pensa que não irá conseguir. Já não é como antes. Já não acredita em mais nada. A mesmice ditando os 365 amanhecer... Horas que se escorrem como areia no vento. 
   A noite chega refrescando os pensamentos, mas chega também o cansaço. Toma um banho. Se troca. Liga a Tv. Absorve as informações distorcidas dos jornais. Come um lanche. Troca de canal. Assiste a novela. Abre uma revista. Abre as redes sociais... suspira ao perceber que não se encaixa nos belos sorrisos de vidro das fotos. Olha-se no espelho. Se perde. A noite se prolonga. Acaba os programas. Vai para cama.... Insônia.
   Nesse momento, inebriada pela noite, escuta no silêncio seus pensamentos e seu coração que bate aceleradamente. Agora que deveria fechar os olhos e descansar o corpo não consegue. Pensa no seu dia e em seus desejos coloridos contrastando com a realidade. Não era o que sonhava de uma realização pessoal. Ali, com a noite refrescando o ruído do grilo e dos morcegos, sobrevoam os pensamentos que se escondem ao amanhecer. Ao fechar seus olhos os pensamentos chegam como corvos bicando feridas antigas. Impossível dormir. Quer sair, colocar uma roupa colorida e se jogar na noite, mas amanhã terá compromissos logo ao amanhecer - aqueles contratos. Emburrece... não pode sair.
   Meia noite
   Meio dia
   Meia vida
   Uma vida inteira
Mais um "x" no calendário... Mas uma pagina virada. Mais um calendário jogado fora e um novo colocado sobre a pratilheira. Olha para seus dias em branco, sente novamente a ansiedade, mas promete fazer tudo diferente, assim como fizera nos outros anos. Mas esse será diferente, escolhera a cor azul para marcar um "v"  em seus dias.