15.3.14

Sr. Diferente

 Aqueles que o tiveram ao seu lado, nada conseguiram concluir, tamanha era suas confusões e indecisões. Não pode argumentar em sua defesa, pois até ele era contra si mesmo. Punia-se, e aceitava as punições de outrem. Acostumou-se com as fuligens do ar, sentia-se estranho ao entrar em contato com as paisagens coloridas, como se as coisas vivas não fossem mais compatíveis com seu ritual. Em sua despedida não houveram comentários nostálgico, muitos estiveram presentes apenas por formalidades, mas seus corações não sentiam-se apertados com a vida que já não existia naquele corpo. 
 Durante muito tempo a população se assustou com seus estranhos modos de agir, era assim em todos os lugares, as pessoas tinham dificuldade de entender alguém que não agia como elas. Com o passar dos dias perderam o medo, mas não deixaram de comentar e se entreolhar quando D. passava. Seguia assim, recebendo fofoquinhas pelas costa e olhares assustado com sorrisos falsos presos no rosto. Deveria ter se acostumado com essas situações, fora assim desde que começou a dar seus primeiros passos, mas não se acostumava com o estranhamento dos outros. Muitas vezes tentou se desculpar por não ter nascido como a maioria, mas muitos acreditavam que D. poderia mudar, que tudo aquilo era apenas coisas da sua cabeça, que bastava ele querer para ser normal. Mas D. não queria ser como os outros, gostava do jeito que era, queria apenas que os outros não se importassem tanto com sua estranha forma de viver. Mas não se acostumaram. Dia após dia D. era violentado, não apenas fisicamente, mas também de forma velada. A violência era percebida pelos olhares, pelas desculpas, pelas saídas disfarçadas. Ninguém permanecia ao lado de D. Alguns eram educados demais para sair sem falar nada e inventavam desculpas esfarrapadas, outros faziam questão de demonstrar sua insatisfação, mas todos partiam pelo mesmo motivo: medo do diferente. A população não estava satisfeita com seu estranho morador. E o estranho morador já não estava contente com a população... nem consigo mesmo. Já não tinha mais forças para lutar, nem se quer para sair de sua cama. Sentia-se inútil e desprotegido. Não havia ninguém para apoiar D. Não conseguia entender o porque de tanta hostilidade apenas por ele ser diferente, era como se os outros tivessem medo de que  ele, o estranho, desequilibrasse suas tediosas vida caricatas. 
 Mas agora D. já não atrapalharia mais. Ninguém sabe ao certo - e também não fazem questão de saber- mas o estranho apareceu no meio da rua, sem vida, como uma folha de papel que se amassa e se joga na estrada. Alguém cuidou dos procedimentos, apenas porque o corpo não poderia ficar ali apodrecendo na rua. Fizeram uma cerimônia sem graça e voltaram para a casa, voltaram para cuidar de suas belas crianças. Ligaram sua tv, sentaram-se no sofá e conversaram sobre a novela.... Tudo voltava ao estado de perfeição. 

 

14.3.14

 As portas e janelas se fecham para a chuva fria que cai lá fora. Os pássaros correm, os cachorros se escondem, as pessoas somem. Lá fora fica apenas a chuva caindo sozinha, molhando a rua - agora vazia - e limpando o telhado das casas. Continua caindo, como se não percebesse a hostil recepção. As portas continuam se fechando com seus baques surdos, abafando seus moradores dentro de suas próprias angustias e mofando os pratos com as refeições esquecidas. A terra se ensopada e vira lama, como se tentasse expulsar o excesso daquela que não é bem vinda. 
  Ela afoga os pequenos insetos, atrapalha o dia a dia, e segue apenas fingindo não perceber o que acontece, apenas sorri ao ser ignorada e guarda para si os pensamentos que se derramarão ao anoitecer ensopando o lençol - já não falo mas da chuva, mas sim de Ana. Ana está sentada no braço do sofá, janelas abertas para respirar o ar molhado. Em suas finas mãos há uma xícara de café exalando sua fumaça que é levada pelo vento. Ana está sozinha. Ana também é chuva... chuva de preocupações, de culpa, de tristezas e arrependimentos. Ana é chuva que se guarda e explode a noite em lágrimas e sonhos. Olha a rua vazia, silenciosa (por dentro). Ouve os pingos que se escorrem do telhado e somem como se nunca tivessem existido. Aparecem e somem como se nunca tivessem existido... aparecem... somem... ás vozes... as cores... a chuva... o canto....os sorrisos... os amores... sumiram. Um dia estavam lá, hoje são memórias em porta retratos e mensagens - falsas - de saudades em alguma rede. Fuma seu cigarro como se quisesse se incendiar por dentro e evaporar como a fumaça que se desfaz na chuva. Abre a porta e sente o vento tentando perfurar sua pele. Aquela rua vazia, aquela chuva sozinha, aquele café aguado, aquele cigarro que se vai... Se vai, abre o portão... Encharcada, com os pés no chão, se vai... chuva por dentro... chuva por fora.... agora chuva... Se vai, descalça andando pela rua vazia...se foi.


13.3.14

 Estava tentando passar a sensação de tranquilidade. Tentava disfarçar minha culpa, esse sentimento que veio do nada. É estranho que isso venha do nada - ok eu sei que não veio do nada -, mas simplesmente não consigo entender o por que. Talvez seja esse excesso de pensar no que os outros vão pensar, assim, simplesmente não consigo nem exprimir meus sentimentos que já me sinto culpada – não quero que me vejam mal, mesmo aqueles que não quero bem. Não consigo simplesmente não me importar, pensar que aquela pessoa não faria diferença. Não gosto e me sinto culpada.
 "Vamos lá, você não vai mesmo precisar disso... pare de se culpar. Vamos, um pouco de autoajuda... você não precisa se culpar". Mas minha voz continua trêmula, tentando se disfarçar. Esforço um sorrisinho, mas este sai torto, quase como uma cara de desgosto. Ai... mais que mania de ser sincera, será que precisava de tudo isso. Ás vezes é assim, os pensamentos escorrem para os olhos e bocas, e quando vejo já estou demonstrando tudo, e me sentindo culpada por estar sendo assim... Vamos lá, você não liga não é mesmo? Vamos lá não se importe com isso... Não vai fazer diferença agora. Seja sincera, o que você sente? E o que importa se for reciproco. Feche os olhos... Repire.. Suspire... Já não importa mais.