Aqueles que o tiveram ao seu lado, nada conseguiram concluir, tamanha era suas confusões e indecisões. Não pode argumentar em sua defesa, pois até ele era contra si mesmo. Punia-se, e aceitava as punições de outrem. Acostumou-se com as fuligens do ar, sentia-se estranho ao entrar em contato com as paisagens coloridas, como se as coisas vivas não fossem mais compatíveis com seu ritual. Em sua despedida não houveram comentários nostálgico, muitos estiveram presentes apenas por formalidades, mas seus corações não sentiam-se apertados com a vida que já não existia naquele corpo.
Durante muito tempo a população se assustou com seus estranhos modos de agir, era assim em todos os lugares, as pessoas tinham dificuldade de entender alguém que não agia como elas. Com o passar dos dias perderam o medo, mas não deixaram de comentar e se entreolhar quando D. passava. Seguia assim, recebendo fofoquinhas pelas costa e olhares assustado com sorrisos falsos presos no rosto. Deveria ter se acostumado com essas situações, fora assim desde que começou a dar seus primeiros passos, mas não se acostumava com o estranhamento dos outros. Muitas vezes tentou se desculpar por não ter nascido como a maioria, mas muitos acreditavam que D. poderia mudar, que tudo aquilo era apenas coisas da sua cabeça, que bastava ele querer para ser normal. Mas D. não queria ser como os outros, gostava do jeito que era, queria apenas que os outros não se importassem tanto com sua estranha forma de viver. Mas não se acostumaram. Dia após dia D. era violentado, não apenas fisicamente, mas também de forma velada. A violência era percebida pelos olhares, pelas desculpas, pelas saídas disfarçadas. Ninguém permanecia ao lado de D. Alguns eram educados demais para sair sem falar nada e inventavam desculpas esfarrapadas, outros faziam questão de demonstrar sua insatisfação, mas todos partiam pelo mesmo motivo: medo do diferente. A população não estava satisfeita com seu estranho morador. E o estranho morador já não estava contente com a população... nem consigo mesmo. Já não tinha mais forças para lutar, nem se quer para sair de sua cama. Sentia-se inútil e desprotegido. Não havia ninguém para apoiar D. Não conseguia entender o porque de tanta hostilidade apenas por ele ser diferente, era como se os outros tivessem medo de que ele, o estranho, desequilibrasse suas tediosas vida caricatas.
Mas agora D. já não atrapalharia mais. Ninguém sabe ao certo - e também não fazem questão de saber- mas o estranho apareceu no meio da rua, sem vida, como uma folha de papel que se amassa e se joga na estrada. Alguém cuidou dos procedimentos, apenas porque o corpo não poderia ficar ali apodrecendo na rua. Fizeram uma cerimônia sem graça e voltaram para a casa, voltaram para cuidar de suas belas crianças. Ligaram sua tv, sentaram-se no sofá e conversaram sobre a novela.... Tudo voltava ao estado de perfeição.