13.7.13

Confusões

   O canto dos pássaros parecia estar congelado no tempo. Os animais já não respiravam, não caminhavam, nem se apresentavam para as árvores. Ela estava em silêncio, tentando pensar no que estava acontecendo ultimamente (seria apenas ultimamente?). Quando realmente tudo isso começou? Lembrava-se de que estava seguindo por um caminho, mas foi obrigada a desviar das pedras que encontrava. Alguns desvios foram provocados por medo, outros por preguiça, mas principalmente por se sentir incapaz de enfrentar os obstáculos daquela estrada. Mudou tanto sua rota, observou tantos meios diferentes, que agora já não podia continuar com seus objetivos iniciais, com seus desejos, mas também não sabia para onde poderia ir. De repente se viu perdida, confusa. Sua bússola já não apontava para lugar algum. Sair ou ficar parada já parecia ser opções equivalentes. Era como se houvesse alguma magia que a obrigava a cair sempre nessa mesma confusão. Sentia sua mente como um emaranhado de fios. Já não sabia o começo, o fim, os desejos, as criações, as obrigações, os instintos. Ultimamente estava ouvindo tanto o que os outros diziam que já nem sabia mais como agir, se sentia extremamente vulnerável àqueles que a cercavam. Lembrava-se de como era antigamente, ainda guardava algumas lembranças distorcidas dos sorrisos sinceros, mas perdera a receita de como produzi-los, perdera a coragem de agir por suas próprias pernas. Enquanto caminhava, encontrava portas ao longo do caminho, mas ao abri-las e entrar se deparava com o mesmo lugar. Não havia saída, por mais que caminhasse sempre estaria no mesmo lugar. Às vezes, o máximo que conseguia era carregar consigo alguma teia de aranha que se enroscava em suas roupas ao andar. Era como se estivesse sumindo, coberta, andando para o mesmo lugar, cansada e com frio. 

sonho

Desejos vãos 

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!... 
                                                                                                                 Florbela Espanca

5.7.13

Somos todos virgens


Somos todos virgens, Lopes. Virgens antes do primeiro beijo, antes do primeiro dia em que andamos de táxi sozinhos, antes do primeiro emprego.  Quem morre sem ter ido a Veneza, sem nunca ter tido um filho, sem nunca ter amado, morre virgem igual, mesmo tendo transado com a cidade inteira. Somos sempre virgens de alguma coisa que ainda não nos aconteceu.
  
Martha Medeiros

2.7.13

Fim






O tempo veio e trouxe consigo a gravidade.

Puxou tudo para baixo.

Despencou o físico e o equilíbrio, 

Desmoronou-se na  fria laje.