30.4.13


Acende uma luz no rosto

Olha-se na água

O escuro refletindo os demônios

Da alma

29.4.13

Helena

  Ela devaneia em volta do lago. Ela, minha Helena, está sentada com as pernas calculadamente cruzadas  para esconder, com seu vestido curto, o alto de suas coxas. Os fios de seu cabelo vermelho-fogo serpenteiam em volta do seu rosto e são tirados por suas mãozinhas delicadas. Uma leve brisa toca o seu corpo fazendo com que seus finos pelos se  arrepiem. Acaricia-se como que para confortar a si mesma e afastar o frio momentâneo. Suas mãos me prendem a atenção por alguns instantes, são tão pequenas e delicadas, as unhas pintada de rosa claro, combinando com sua meninice travessa. Os dedos finos, com um anel de pedra cristal, estão dedilhando a grama distraidamente.
   O sol preguiçoso da manhã reflete-se exibidamente no água. Helena, como que para brincar com aquela estrela que, inutilmente tenta competir com seu brilho, pega pequenas pedrinhas e joga no lago. Observa o seu efeito, pequenos círculos surgindo dentro de outros, diminuindo até sumirem. A garota com seu cabelo de fogo delicia-se com os efeitos que causa, não apenas no lago, mas em todos que a olham. Entorpecida por algum pensamento proibido, dá sorrisos tímidos e abaixa a cabeça para esconder a malícia que escorre de seus finos lábios. Cansada daquela posição, deita-se na grama e fica ali tentando adivinhar os enigmas das nuvens. O seu cabelo se espalha desorganizadamente juntando-se com as folhas do chão. Apoia suavemente um braço em cima do peito e o outro na grama. Uma perna estendida e a outra dobrada fazendo com que o seu vestido desça, como um demônio que provoca mas nada mostra. Fecha o olho. Em que pensa? Voa para longe, constrói em sua mente algo alheio aos meus pensamentos. Adormece pequenina.

                                                        ....

Ela movimenta-se bruscamente como um anjo que acorda de algum pesadelo. O que atormenta aquela mente dócil? Volta a se sentar na grama para acalmar seus pensamentos e se localizar no tempo. Quanto tempo se passou? Helena passa suas mãozinhas no cabelo de fogo, deixando algumas folhas teimosas caírem de volta para o chão. Espreguiça-se manhosa como uma gata. Contempla preguiçosamente o lago por mais alguns instantes. Olha em seu relógio e assusta-se calculando que já  passou mais horas do que imaginava. Ergue seus finos braços novamente, esticando-os como se quisesse alcançar o céu e boceja dengosamente. Levanta-se magistralmente em um pulinho. Suspira... O sol estava agora mais forte. Olha a sua volta. Abre sua bolsa e retira seus óculos escuro. Coloca-o, cobrindo seus lindos olhos azeitonados. Retira também seus fones de ouvidos, escolhe uma música em seu celular e começa a caminhar lerdamente. Chuta algumas pedrinhas que encontra, como que para afastar os pequenos empecilhos do caminho, e vai se afastando do meu campo de visão. Em alguns segundos deixa-me sozinha, atordoada, sentindo-me fria sem seu fogo para me esquentar.

28.4.13

Ciclos

O Death by Jen Titus on Grooveshark
   Engoliu aquela gota de café amarga com uma certa dificuldade, o nó na garganta impedia de apreciar o líquido quente de sua xícara. Tamborilou os dedos na mesa como que para quebrar o silêncio que invadia e se acomodava na sala. O sol entrava forte pela janela, esquentando o ambiente e clareando as paredes apáticas. A garota ali continuou como se o tempo não passasse e nada tivesse para fazer. Aliás, agora, nada havia realmente para fazer. Tudo já havia acabado.
    Na noite anterior Antônio entrou como um furacão na casa, o cheiro de álcool invadiu o ambiente e instalou-se no quarto. Melissa não pode entender o que o bêbado falava, apenas recebia como um soco no estômago aquele bolo de letras saindo dos lábios que outrora fora doce e gentil. Tony estava transtornado como se estivesse procurando algo, talvez estivesse procurando a calmaria antiga. Destruía a casa, jogava as roupas no chão, os móveis, o vidro, as flores, e junto com os objetos jogava a felicidade de Melissa no chão, pisoteava e cuspia em cima dos planos futuros. Mel como pedra, medrosa como um filhote, estava sem reação, se não fosse pelo tremor que lhe chacoalhava dos pés aos fios do cabelo, estaria como uma estátua de gesso, branca e fria. Apenas olhava o furacão que entrou em sua casa e a destruía - casa e  mel. Não era a primeira vez que o via bêbado, irritado, mas nunca havia chegado aquele ponto de fúria  Ficava paralisada diante daquilo como se não acreditasse que seu amado havia se transformado num bêbado e completamente estranho. De alguns meses pra cá era assim a vida, ele não suportava as pressões da empresa e se embriagava para esquecer... porém não esquecia, apenas angustiava-se mais sentindo-se inútil e fracassado. Mas ontem Antônio não conseguiu se controlar, chegou na empresa e por justa causa fora demitido. Andou pela cidade como um espectro. Não pensou. Congelou-se por dentro e quando levantou a cabeça estava no bar, o seu atual confidente. Bebeu... embebedou o corpo e a alma, bateu o copo na mesa e saiu aos tropeços pela noite escura.  O mundo girava, dentro e fora do bêbado. Quando chegou em casa não pode suportar olhar Mel que agora representava seu oposto. Tudo aquilo o atingiu como um tapa na cara, como uma acusação. Sua raiva -não dela, mas de si- cresceu, explodiu emanou pelas mãos, o cegou, tirou seu controle e como um demônio começou a destruir tudo a sua volta. Como se quisesse destruir aquela que antes fora o modelo a ser seguido, agarrou Mel pelo pescoço como se quisesse quebra-la, elimina-la da existência. Porém Melissa -a doce mel- foi mais rápida, com suas mãos tremulas conseguiu agarrar a faca que estava sobre o encosto do sofá. Acertou o ombro do bêbado que a sufocava. Ele a soltou, deu dois passos para trás olhando para ela assustado, desacreditando no que estava acontecendo, e desmoronou como gigante no chão. Um baque surdo do corpo chocando-se contra o piso. Mel correu, não chamou o resgate, não pensou, apenas correu, sem destino, correu para salvar-se mesmo sem saber para onde ia. O medo, a sensação de ter alguém que a perseguia, a impedia de descansar suas pernas. Apenas corria. Em alguma rua, ela não conseguia se localizar, encontrou algum conhecido que segurou forte seus braços, fazendo com que a garota parasse de se debater e gritar, para abraça-lo e chorar como nunca havia chorado. Depois de minutos conseguiu relatar, entre soluços e lágrimas, o que havia acontde ecido e se pois a chorar o que ainda restava. Seu amigo Eduardo - agora a garota conseguia recobrar com clareza - levou a pequena Mel até a delegacia onde ela declarou o que havia acontecido. 
   A noite fora longa... Chegou a polícia, ambulância, luzes piscando e vizinhos curiosos na rua, tudo deixando Melissa mais tonta e enojada. Eduardo a levou para casa dele, fez um chá calmante e a colocou para dormir como um bebê assustado. Dormiu, mas se mexia violentamente como se tentasse fujir de algo. Gritos, sangue, sombra, vidros quebrados, choro, foram os temas dos pesadelos da garota naquela noite. Quando acordou Eduardo já tinha ido trabalhar, deixou um bilhete escrito onde se encontrava as coisas da casa e o que iria fazer. Mel preparou um café, sentou-se na mesa e agora estava ali, tentando engolir as gotas enquanto seus dedos batiam impacientes na mesa. Com os pensamentos embaçados ficava refletindo se aquilo teria sido verdade ou um filme de péssimo gosto que havia assistido. Como aquilo foi acontecer com ela? Como Antonio, Tony virou aquele monstro? Ele que tanto lutara para crescer profissionalmente, aos poucos, deixou-se cair nas armadilhas das pressões, exigindo cada vez mais de si, implodindo aos poucos até externalizar seus destroços. Como se deixou iludir que ele mudaria, deixaria aquele emprego, voltaria a ser o doce Tony de antes? Não podia abandoná-lo antes e deixá-lo destruir-se, tinha medo de piorar a situação, e mesmo assim, com tantos receios, tudo tomou aquela terrível proporção. Poderia ter fugido antes, poderia ter ajudado seu amado... Não poderia, não era sua culpa. Mas... Mas... Sua cabeça girava sem parar. O que fazer agora? Poderia ficar ali? Sem ter que ir à delegacia mexer com problemas burocráticos, sem precisar voltar naquela casa para pegar suas coisas e relembrar os momentos bons e ruins, sem ter que dormir e ter pesadelos... Sem ter que continuar a ser ela mesma? Poderia apagar tudo? Mel deixou sua xícara de lado. A angústia apertava seu estômago, sufocava sua respiração, fazia sua mente explodir. Olhou para a estante e viu uma garrafa de Uísque.  Sem raciocinar, como robô,  dirigiu-se até a estante e pegou a garrafa. Um copo estava ali do lado como uma criança atentada querendo aprontar. Melissa pegou o copo e deixou que a fina cachoeira âmbar preenchesse o seu interior, caminhou com a garrafa e o copo para o sofá. Sentou-se. Levou o copo até seus gélidos lábios e deixou que o liquido escorresse para dentro do seu corpo. Aos poucos a angústia foi se diluindo, os pensamentos, embora torturantes, tornaram-se mais leves. Sentiu-se estranha. Desmanchou-se e deixou que a garrafa e o copo caíssem do sofá e trincassem no chão.  Sentiu-se fora. Fora dos problemas... Uma solução. Achara uma imediata solução.

27.4.13

Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria."


Autor?

AMOR E MEDO.


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"


Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...


Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.


É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!



Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?


A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!


Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...


Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...


Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...



Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!


No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!


Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.


Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...


Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...

Casimiro de Abreu

26.4.13

Às vezes

                         de noite

                                         eu saio de mim 

Para ver estrelas

                              e a neblina caindo

                                                        no jardim.


Antônio Ubirajara Lopes

Desencontros


image

E em meio a tantos um dia vamos marcar
Ficamos ali, dois barquinhos navegando em direções diferentes.
E em meio a tantos vamos de mãos dadas
Fomos, individualmente.

25.4.13


image

A ampulheta secou,
e a covardia se acomodou.
.
Você ausente, o vazio presente,
e os dias seguindo religiosamente.

24.4.13

23.4.13

Paradoxos


tomasz alen kopera pinturas surreais natureza anjos sombrios pedra e fogo
Pintura de :Tomasz Alen Kopera
Minha mente 
gritando
em um querer selvagem

Meus medos 
atrofiando 
minha coragem











21.4.13


“Como eu gostaria de arrancar a minha pele sem medo 
    e mostrar
    o meu todo para o outro.”

Hilda Hilst

Mundo novo

Enquanto eu estiver lá fora,
O relógio vai continuar a girar,
A maquina vai continuar a registar,
As programações seguirão sem reclamações.
Enquanto eu estiver lá fora, um mundo louco e sistemático vai continuar a regular meus passos.


Mude

             Mesmo que seja um pouquinho...
Mesmo que seja em pensamentos...
              Mesmo que seja apenas o gênero de um livro.
Reflita sobre seus preconceitos.
De pouco em pouco,
     muitas vezes apenas olhando o outro lado da história,
podemos criar uma vida mais adocicada.

Às carícias do vento


image

Há algo de especial no sabor do vento

Uma voz que chama à liberdade, que mostra uma verdade interior, uma sensação florescente.

Há um pássaro de asas abertas no sabor do vento, chamando-me para deliciar-me em minhas vontades.

As carícias da brisa fresca despindo-me do exterior, tornando-me apenas alma.

Voo de alma exposta à liberdade, guiada pelas carícias do sabor do vento, como um pássaro florescente em minhas vontades.

Para onde estamos indo ?


image

Mesmo depois de tanto esforço para subir as escadas, descobre-se então que o topo é, antes de tudo, um lugar solitário. Encontra apenas as restrições e exigências espremendo a leveza das coisas simples. Para admirar-se é necessário a distinção dos demais, distanciando-se não apenas dos corpos, mas também dos sorrisos de causas bobas e reflexões sem preocupações.

Nas asas do destino


image

Um dia por aí andando,
Encontro aquele pássaro
Cantarolando


Ansiedades


Como sempre,
Um passo à frente,
Pulando o presente

5.4.13

Eros se foi



Tum-tum
Se esvaindo.
Tum- tum
Ecoando no vazio

Tum- tum
Tum
T.





Sou

Apenas falo.
Faço? 
Não faço.

Apenas piso na grama seca,
Expondo minhas reclamações,
Jogando migalhas pros pombos sujos.

Sigo em circulo.
Nem à frente, nem repensar.
Vou, às migalhas, às sujas.