23.2.14

Porcelana

Ela é feita de porcelana.
Sua pele trinca ao ser tocada
cortando os dedos que passeiam pelo seu corpo.
Corrói a mente...

Ela é feita de porcelana.
Sozinha, intocável
ela canta para atrair os transeuntes.
Seu olhar prende, sua pele corta, sua mente é vazia e fria.


Ela é feita de porcelana.
Pintada de vermelho. 
Presa em um rosto ingênuo
Pede ajuda, 

Ajudo.
Trinca-se.
Corta-me. 
Vira pó.

Não há nada sob meus toques.
Ela era feita de porcelana.




11.2.14

Florbela Espanca - Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca - Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Deixa cair.
Deixa que se destrua.
Deixa que tudo se acabe e vire cinzas.
Chore. Grite. Se desmanche na tempestade.
Depois que a paisagem voltar a ficar sonolenta poderemos andar tranquilamente.

O começo exige um fim.

O tempo destrói tudo.