9.5.12

Entrar no passado

    O relógio estava desorientado ou eu me perdi no tempo? Não sei em que dia estou, o que estou fazendo nem o por que. Será que algum extraterrestre me raptou e embaralhou minha memória? Onde estão aquelas pessoas que caminhavam ao meu lado e compartilhavam os mesmo planos? Tínhamos um horário marcado, alguém se lembra? 
     - Não, não há mais ninguém aqui.
   Aquela flor vermelha que havia em meu quintal já não existe, ficou apenas o seu talo amarelados pelo tempo e que ainda resiste lutando contra o vento que o contorce. A terra está seca. Era aqui mesmo que eu brincava? Onde estão os gatos que se arrastavam pela rua? E aquelas pessoas que reclamavam que o clima estava cada vez mais quente e o fim muito próximo? O que foi feito das profecias?
    A chuva estava muito forte lá fora, a porta estava aberta e eu entrei... Entrei no passado. Não pude evitar as lágrimas que se chocaram contra o chão empoeirado. A cama desarrumada, os quadros trincados e a mesa com o café e migalhas espalhadas. O que passou por aqui? O que se passou em meu passado? Olhei os cd’s que não me faziam mais sentido, olhei os pôsteres de pessoas distorcidas... não, não reconheci aquele lugar... não reconheci também o espelho. Andei mais um pouco, olhei cada cômodo da casa, cada objeto, cada osso jogado e já não tinha certeza se tinha entrado no lugar certo. Repensei sobre como era aquele tempo. 
    E ainda assim, mesmo sentindo que aquele lugar já não era mais meu, sentei-me no sofá rasgado, fingindo-me protegida. Encarar o futuro incerto e escurecido não me pareceu a melhor escolha no momento, o passado às vezes parece o lugar mais seguro, mesmo que estando em ruínas. 

6.5.12

Amargo exagerado


Não, eu não quero sair daqui...
Gosto do meu quarto quente com sua escuridão uterina protegendo-me dos acontecimentos. Aqui dentro não importa muito os movimentos que eu faça, nem o que corre à minha volta. É como se eu perdesse os sentidos da dimensão de responsabilidades, das contas matemáticas... de mim.
Há alguns corpos sem formas passando lá fora, crianças que voltam da escola e gritam alguma coisa que me chega distorcida. Sinto medo de sair daqui, como se fosse ser recebida com espadas. Não há nada para me proteger lá fora. O medo é o meu maior protetor, deixando minhas pernas sem ações, fazendo-me esquecer por alguns momentos que eu não deveria estar aqui me esquivando da vida. 
Em meio aos delírios e à garganta estrangulada, a qual não deixa nenhuma palavra sair, um rio invade meu quarto devastando tudo à sua volta, mas eu ainda estou aqui, boiando no meio de seus movimentos... Não quero sair. Fugir desse lugar seria como a sensação de estar enrolada em uma coberta e ter que sair para enfrentar o frio e as obrigações. Estou sem força para enfrentar as coisas... Mas chegará uma hora em que a necessidade baterá a minha porta e me expulsará daqui ou morrerei presa à inércia que esse lugar me proporciona.