Stereophonics - Mr. Writer
São como conta-gotas. Sente os dias pingando, marcando "x" vermelho em seu calendário recém instalado sobre a pratilheira. Uma certa ansiedade ao olhar todos os outros dias em branco e pensar em como serão. Enquanto as gotas se vão, os livros são abertos, a tv é ligada, o café se vai pelo ralo. Gritos na rua - sempre há gritos na rua-, palmas no portão, cachorros latindo, o relógio tictaqueando... Mais um "x".
O sol que se levanta preguiçoso pela manhã. Os olhos que se abrem para esconder o que há muito martela por dentro. As roupas cheirando amaciante, o cheiro do café da manhã, o gosto da pasta de dente, a água do chuveiro que passa e congela pelo corpo. Sentar na cadeira e levantar-se desejando inverter os horários.
O portão que se abre. O carro que se vai. O semáforo que atrasa o trânsito. Buzinas. Fechadas. Batidas. Olhares. Aviões. O mesmo caminho marcado a giz. O automóvel que decora o trajeto de todo dia. Os dias que ficam estigmatizados, anos após anos. Chega. Fecha a porta. Suspira. Entra. Senta. Escreve. Suspira. Escreve. Pausa. Lanche. Escreve. Perde a criatividade. Sente-se pesada. Pensa que não irá conseguir. Já não é como antes. Já não acredita em mais nada. A mesmice ditando os 365 amanhecer... Horas que se escorrem como areia no vento.
A noite chega refrescando os pensamentos, mas chega também o cansaço. Toma um banho. Se troca. Liga a Tv. Absorve as informações distorcidas dos jornais. Come um lanche. Troca de canal. Assiste a novela. Abre uma revista. Abre as redes sociais... suspira ao perceber que não se encaixa nos belos sorrisos de vidro das fotos. Olha-se no espelho. Se perde. A noite se prolonga. Acaba os programas. Vai para cama.... Insônia.
Nesse momento, inebriada pela noite, escuta no silêncio seus pensamentos e seu coração que bate aceleradamente. Agora que deveria fechar os olhos e descansar o corpo não consegue. Pensa no seu dia e em seus desejos coloridos contrastando com a realidade. Não era o que sonhava de uma realização pessoal. Ali, com a noite refrescando o ruído do grilo e dos morcegos, sobrevoam os pensamentos que se escondem ao amanhecer. Ao fechar seus olhos os pensamentos chegam como corvos bicando feridas antigas. Impossível dormir. Quer sair, colocar uma roupa colorida e se jogar na noite, mas amanhã terá compromissos logo ao amanhecer - aqueles contratos. Emburrece... não pode sair.
Meia noite
Meio dia
Meia vida
Uma vida inteira
Mais um "x" no calendário... Mas uma pagina virada. Mais um calendário jogado fora e um novo colocado sobre a pratilheira. Olha para seus dias em branco, sente novamente a ansiedade, mas promete fazer tudo diferente, assim como fizera nos outros anos. Mas esse será diferente, escolhera a cor azul para marcar um "v" em seus dias.
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