12.1.14

Delírios de falta

 Não era a falta dele. Não era a falta daqueles dias, das sensações, dos cheiros, dos sorrisos. Era simplesmente falta. Era uma falta em essência, disforme. Era o espectro do passado sobrevoando os novos movimentos. A saudade não tinha um objetivo, um desejo específico. Tudo soava como um chiado de um rádio mal sincronizado, impossível de ser captado e compreendido. Se estivesse descrito o que faltava, assim como nos livros de receitas, poderia calçar os sapatos e ir a luta. Mas assim, com essa falta disforme, palpitando como uma criança mimada que berra sem saber o que quer, assim não dava para caminhar.
 Assim foi ficando com aquela falta enquanto tentava beber água na esperança de se preencher. Talvez a chuva tivesse um efeito mais satisfatório. Talvez o fogo. Talvez um descanso de tudo. Talvez não fosse falta, mas sim uma garrafa cheia se derramando. Eram muitos talvez,  mas o incomodo principal era a falta de uma definição para tornar possível um conhecimento, como o das doenças em que se receita um medicamento específico para aliviar os sintomas...
 E assim passou sua noite pensando no que faltava, tentando encontrar fórmulas para se entender. Como cachorro correndo atrás do rabo, faltava achar algo para entender o que faltava. 

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