As portas e janelas se fecham para a chuva fria que cai lá fora. Os pássaros correm, os cachorros se escondem, as pessoas somem. Lá fora fica apenas a chuva caindo sozinha, molhando a rua - agora vazia - e limpando o telhado das casas. Continua caindo, como se não percebesse a hostil recepção. As portas continuam se fechando com seus baques surdos, abafando seus moradores dentro de suas próprias angustias e mofando os pratos com as refeições esquecidas. A terra se ensopada e vira lama, como se tentasse expulsar o excesso daquela que não é bem vinda.
Ela afoga os pequenos insetos, atrapalha o dia a dia, e segue apenas fingindo não perceber o que acontece, apenas sorri ao ser ignorada e guarda para si os pensamentos que se derramarão ao anoitecer ensopando o lençol - já não falo mas da chuva, mas sim de Ana. Ana está sentada no braço do sofá, janelas abertas para respirar o ar molhado. Em suas finas mãos há uma xícara de café exalando sua fumaça que é levada pelo vento. Ana está sozinha. Ana também é chuva... chuva de preocupações, de culpa, de tristezas e arrependimentos. Ana é chuva que se guarda e explode a noite em lágrimas e sonhos. Olha a rua vazia, silenciosa (por dentro). Ouve os pingos que se escorrem do telhado e somem como se nunca tivessem existido. Aparecem e somem como se nunca tivessem existido... aparecem... somem... ás vozes... as cores... a chuva... o canto....os sorrisos... os amores... sumiram. Um dia estavam lá, hoje são memórias em porta retratos e mensagens - falsas - de saudades em alguma rede. Fuma seu cigarro como se quisesse se incendiar por dentro e evaporar como a fumaça que se desfaz na chuva. Abre a porta e sente o vento tentando perfurar sua pele. Aquela rua vazia, aquela chuva sozinha, aquele café aguado, aquele cigarro que se vai... Se vai, abre o portão... Encharcada, com os pés no chão, se vai... chuva por dentro... chuva por fora.... agora chuva... Se vai, descalça andando pela rua vazia...se foi.
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