31.1.13

Bisbilhoteira sem rumo


   Estou aqui na janela, para variar, ouvindo aquelas músicas que me fazem querer transportar-me para o mundo encantado. Dispensei minha xícara de café, não sei justificar o  motivo, talvez esteja tentando "fazer coisas diferentes" e, avaliando meu vício, diria que é um grande passo para uma mudança.  Já começo esse texto enrolando as letras, pois minha mente sente, sente, e não consegue traduzir as cores. Pois bem.
  Estou aqui em frente à janela, olhando a lua e sentindo o vento sussurrar harmonioso em meus ouvidos. Olho mais à frente e vejo um gato passando delicadamente sobre o telhado vazio, crente de que não há olhos bisbilhoteiros observando-o. Sinto agora que, além de enganar a mim mesma, engano também gatinhos inocentes. E continuo com este texto prolixo. Pois bem. 
  Estou olhando a lua, e isso à ninguém interessa. Observo o gato perdido em seu andar e sinto-me complacente. Estou perdida em meu olhar. Nem ao menos consigo criar metáforas para o que vejo e sinto. A lua, o gato, e minhas mãos vazias que sente falta. Talvez não seja falta apenas da xícara. Talvez seja falta de copos de vinho, de corpos, de fotos. Apenas faltas acompanhadas de doses de saudades. 
  A lua se vai mais alta. O gato parece finalmente encontrar seu caminho no telhado, calcula um pulo... E pula. Como invejo este felino, quem me dera também pular - mas covarde, permaneço na janela. 
Formamos um belo trio. Eu, o gato e a lua. Três solitários. A lua completará sua volta, o gato encontrará o tão procurado. E eu? Nem ao menos dei passos, não terminarei nenhum ciclo hoje. Estou aqui parada pensando, sem conseguir escrever direito. Na verdade estou com medo de pensar, e se eu descobrir que o que borbulha aqui dentro não é algo alegre e colorido ? Como lidar com isso ? Sem minha xícara, sem corpos e sem fotos.
.
Pois bem, não resisti a minha pequena mudança e peguei uma xícara de café. Decido não escrever detalhes claros. Basta saber que estou na janela, ouvindo músicas que não sei definir o gênero, invejando um gato que pula, e sentindo falta de copos e fotos. É a situação que me coloco, e que me sinto mais confortável, quando o filme que me descreveria não se pareceria com um comercial de margarina. Seria um filme sem publico, sem roteiro, sem... Apenas a lua, um gato, e uma bisbilhoteira com uma xícara de café na janela. A lua continuaria sua rota, permitindo o amanhecer; o gato, após achar o que deseja, encontraria um canto e se acomodaria;  o café acabaria, deixando apenas a borra; e a bisbilhoteira... permaneceria na janela, com uma xícara vazia, sem saber que rumo seguir.

30.1.13

Percepções



Talvez haja mundos encantados por trás das nuvens.
Quem  sabe os dias não sejam apenas uma pequena fração de toda uma existência.?
Pode ser que uma realidade colorida nos espere em instantes paralelos à cada monotonia.
Há tantas coisas encobertas pelas nuvens do desconhecido, tantas criações tentando preencher a ignorância.
Talvez a vida seja encantadora por trás da cortina da realidade.
Fico aqui imaginando o que seria o real. O que seria o melhor. O que seria.
Quem vai dizer o que há escondido por trás das nuvens da nossa vaga percepção.?

29.1.13

Um talvez


Talvez tenha sido sonho, talvez esteja ficando louca - sendo esta a mais plausível, ou talvez- prefiro crer-, você realmente esteve aqui.


   Ontem senti o cheiro do seu perfume entrando pela janela. Esse cheiro, mal educado, que entra sem pedir licença, trouxe consigo mil lembranças que estavam guardadas em algum compartimento secreto da minha mente. Seu cheiro entrou, sentou-se no sofá, bebeu uma xícara de café - assim, como quem não quer nada-, e ficou assistindo filmes sem graça ao meu lado. Nada falou, mas ousou.  Movimentou-se de forma brusca, deixou, não apenas a lembrança, mas também provas. Os copos estilhaçados caídos pela casa deixaram um cheiro alcoólico forte, as marcas vermelhas em minhas unhas, a porta da geladeira aberta, o vento balançando os quadros do corredor, parecem-me fatos convencendo-me de que esteve aqui.
   Quem sabe em pensamento, ainda assim marcou seus passos nesse chão empoeirado.
Era uma noite fria recheada com brisas quentes. Um copo de vermute substituindo a xícara de café. Algumas risadas, gatos passeando pelo telhado. Mãos passeando pelo telhado. A sensação de uma presença marcando as horas, preenchendo-as com perfumes e toques efêmeros.
    Talvez apenas em pensamento, talvez marcando de verdade, ou apenas um talvez.

26.1.13

Mais uma música - Flight Facilities - Crave You


Flight Facilities - Crave You (Adventure Club Dubstep Remix)

Que vale por milhares de palavras para explicar essas sensações 

24.1.13

Culpa da música


First Aid Kit - When I Grow Up (Fever Ray cover)



    Essa música me da uma vontade de sair andando por aí, sem destino, apenas aproveitando o ar da noite, vendo os olhares perdidos em seus pensamentos iluminados pela lua. Causa-me aliás, uma vontade de perder-me em pensamentos, de criar realidades, criar faces, coisas novas.

Sair por aí criando coisas, expressando o que há dentro de mim, exorcizando os olhares tortos de outrem. Apenas sair por aí, andando, correndo, parada enquanto a realidade furta-cor rouba-me do repetitivo. Dá-me uma imensa vontade de agir de forma intensa, em um ilusório "sem medo de ser feliz".


Tudo culpa dessa música que entra-me direto n'alma, muda a minha forma de colocar os blocos em seus devidos lugares. Tudo culpa dessa música.


O problema é que la fora não toca essa música. Devo agradecer, é verdade, por não estar tocando música alguma. O problema é que, ao desligar meu rádio, o mundo continuará e as vontades voltarão a intimidar-me diante das paredes desse planeta.


Mas durante esse 3:27 (diversas vezes 3:27, enquanto o replay esiver ativado) as vontades ficarão aqui a me rodear, pulando, fazendo-me enxergar serzinhos minúsculos em volta.


Enfim, tudo culpa dessa música... O textos, as vontades, a sensação da brisa fresca da noite, os seres coloridos... Tudo culpa da música que, resgatando-me dentro de meu ser, faz-me olhar para o que ainda pulsa aqui dentro.

Vontade

Vontades
Um dia ainda coloco-as em prática... Um dia

"Quando eu crescer, quero ser um habitante da floresta
Correr no musgo com saltos altos
Isso é o que eu vou fazer, lançar um bumerangue
Esperando que ele volte pra mim"

21.1.13

Penso tanto que já não consigo colocar em palavras,
um segredo que deixo aqui palpitando na minha caixinha.
Um dia ela quebra e meu segredo evapora-se pelas ruas da cidade.

16.1.13

Clima de outono


O clima de outono está nos rondando.

Sinto que minhas pernas cansaram e meus olhos já não aguentam permanecer abertos.
As letras saem erradas e a tinta está acabando.

As folhas caem vagarosamente, acompanhando o clima de inércia. O sol brilha por obrigação de todos os dias.
Você pode ver ? Você está ai?
- Não.

Não há nada aqui. Os amigos se desmancharam com o tempo. O velho sofá está mofado.As folhas dos diários estão se despedaçando, as histórias foram levadas pelo tempo.
Há um velho rádio em algum lugar perdido tocando uma música sem ritmo. Algumas pessoas fingem sorrir, outras passam com seus rostos cinzentos. A poeira fica para trás, entra na minha sala, flutua e cai no escuro do meu quarto.

As noites chegam abafadas, sem vontades e sem romances. As horas passam indiferentes, pouco ligando para chegadas e despedidas.

As ultimas placas foram arrancadas a décadas. O raciocínio se perdeu.

Tudo ficou em amarelo-preguiçoso. A paisagem permaneceu estática-sem sentido. Nada mais caminha, apenas passa... ficou...
Acabou.

14.1.13

O que ficou

Não adianta tentar desfazer o novelo, não adianta pegar a agulha... Nada irá sair.

Não adianta pegar o violino, apoiar-se na janela e fazer ar de inspiração... O som simplesmente não sai.

Não adianta tentar escrever textos corridos... As linhas parece estar sempre se quebrando.

A xícara rola para baixo do sofá. As mãos estão fracas. O coração bate acelerado buscando reações dos outros órgãos, mas a mente nada quer fazer. Os olhos estão semicerrados.

A pulseira está estilhaçada no piso de madeira. A porta enferrujada range com o vento preguiçoso. O ar amarelado entra na casa para renovar o seu ar idoso.

Os gatos foram embora, a vizinhança foi embora, o espírito foi embora, apenas o nada ficou perambulando entre o quarto e a sala de estar.

O antigo espelho retratando um antigo sorriso acinzentado. Uma pequenina foto colada na extremidade... Um campo verde.

A parede branca que sobrou permanece esperando novidades, quadros, fotografias novas. Mas apenas as lembranças agarram-se em suas esperança.

Dia após dia. Horas longas. Sono pesado. Dia após dia.

Olho pras casas vazias... apenas corpos fazendo sombras nas cortinas desbotadas. Ali está um gatinho de orelhas em pé... Nada pode ouvir.

Ainda estou esperando aquela estrela cair em cima de mim levando-me para o solo. 

Ainda estou esperando o mar levar-me além.

Ainda estou esperando...

12.1.13

Fuga do real


     Houve um tempo em que tentava fugir da realidade, fugir dos instintos.
                                                  Pintava o céu de azul, a grama de verde, o amor de rosa....
                     Houve um tempo em que tentava suprimir o vermelho do sangue e o brilho das lágrimas.
 Houve tempo....
  Houveram tempos.
     A cada momento uma parede era erguida e o pincel percorria pintando cores bonitas e quentes.  
       Naqueles dias, fugia-se do marrom e das cinzas, fugia-se das folhas secas e das borboletas mortas.

O tempo passou, as paredes caíram. O trabalho se escorreu pelo ralo. Apareceu o fundo detonado, as velhas cicatrizes, esqueletos a mostra e dentes quebrados. O espelho mostrou instintos trincado. Viu seus dentes tingidos de sangue brilharem no escuro.


   As mãos perderam as conexões,
                                          o pincel caiu,
                                                   o pescoço se quebrou.

   Por dentro, viu que não era bonito. Percebeu que atrás das falsas paredes coloridas que criava - na esperança de construir algo bonito por dentro -  havia um instinto desconhecido que lhe parecia monstruoso, havia uma realidade, um monstro desmaquiado

                                  Virou cinza