12.1.13

Fuga do real


     Houve um tempo em que tentava fugir da realidade, fugir dos instintos.
                                                  Pintava o céu de azul, a grama de verde, o amor de rosa....
                     Houve um tempo em que tentava suprimir o vermelho do sangue e o brilho das lágrimas.
 Houve tempo....
  Houveram tempos.
     A cada momento uma parede era erguida e o pincel percorria pintando cores bonitas e quentes.  
       Naqueles dias, fugia-se do marrom e das cinzas, fugia-se das folhas secas e das borboletas mortas.

O tempo passou, as paredes caíram. O trabalho se escorreu pelo ralo. Apareceu o fundo detonado, as velhas cicatrizes, esqueletos a mostra e dentes quebrados. O espelho mostrou instintos trincado. Viu seus dentes tingidos de sangue brilharem no escuro.


   As mãos perderam as conexões,
                                          o pincel caiu,
                                                   o pescoço se quebrou.

   Por dentro, viu que não era bonito. Percebeu que atrás das falsas paredes coloridas que criava - na esperança de construir algo bonito por dentro -  havia um instinto desconhecido que lhe parecia monstruoso, havia uma realidade, um monstro desmaquiado

                                  Virou cinza

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