13.2.13

Medo de trovões


    Tenho medo de trovões. Começo assim, sem lubrificar o texto. Começo assim porque estou com medo da chuva que cai agora. Essa chuva tempestiva que chega quase sem avisar, antecedida apenas de um simples vento uivante que não possibilita nenhuma ação preventiva. Chega. E após sua chegada triunfante, acomoda-se no tempo – mas não abranda – com seus trovões ensurdecedores. Coloco uma música para disfarçar, mas os relâmpagos me avisam o que está ocorrendo lá fora. Fico então aqui dentro de casa, sentindo-me em um filmes de terror, daqueles em que um assassino, chegando com seus passos pesados, abre as portas com força fazendo-as chocarem-se contra a parede, resultando em um tremor na casa. A diferença é que eu não entrei em nenhuma casa abandonada, não fugi para o matagal. Não fiz nenhuma coisa estúpida como as protagonistas desses filmes. Estava aqui na minha casa – e ainda estou no mesmo lugar – e os trovões começaram a bradar lá fora com suas luzes cortando o céu.
    Cheguei em casa há pouco. Sentei nessa cadeira. Abri a janela para refrescar a casa. Abri o blog para escrever algo que já esqueci. E então ouvi o sinal. Corri para fechar a janela. Sentei novamente nessa cadeira esperando a minha companhia. E então a chuva chegou acompanhada de seus amigos mal-educados. E aqui estou escrevendo sem prestar atenção. Apenas com os músculos tensos e já doloridos.
    É estranho dizer isso, pois amo a chuva. De verdade. Sem ironia. Amo. Porém amo as águas silenciosas. Gosto daquela chuva que cai sozinha. Sem ninguém gritando seus graves e batendo o pé fazendo tudo tremer. Gosto daquela chuva que faz estragos, mas não ordena, não fica tentando assustar as crianças medrosas – principalmente as crianças internas. Gosto daquelas chuvas que apenas cai e carrega tudo consigo. Silenciosamente, como um ladrão misterioso. Talvez isso se deva pelo fato de eu nunca ter gostado de ambientes ruidosos, daqueles em que me sinto um personagem de filme de guerra, sem conseguir definir de qual canhão surgiu o estrondo e sem saber para onde correr. Nunca gostei de pessoas que ficam gritando sem necessidade e nem daquelas que gritam por necessidade. Não gosto de gritos. Buzinas. Músicas que surgem do nada e se vão do nada, deixando apenas suas notas distorcidas no ar. Sim, sou chata. Gosto de coisas calmas.
    Acho que sou uma pessoa contrária. Quase um "Benjamin Button" em relação aos meus medos. Quando era pequena amava a chuva com seus trovões. Abria a cortina pra ver a raive do lado de fora. Ficava animada com os ruídos. Chegava agradecer, pois sabia que teria uma boa noite de sono e ficava chateada caso o temporal se aquietasse. E agora, anos mais tarde - não ousarei falar quantos- aqui estou escrevendo inebriada com o temor de que algum gigante esmague minha casa. Colocando os fones de ouvidos em volume alto para tentar esquecer o que há lá fora, e ficando cada vez mais paranoica. 
    A música que estava tocando nos meus fones se silencia e percebo que a chuva está se acalmando e tornando-se agradável, exceto por alguns relâmpagos que surgem longe parecendo dizer ainda estou aqui ,você não perde por esperar. Encontro-me então dura; sentada nessa cadeira, com os joelhos dobrados “ai se eles relarem no chão”; escrevendo coisas que apenas mais tarde revisarei. Permito-me agora colocar os pés no chão. Ok. Confesso, ouvi está história em algum lugar  que colocar o pé no chão puxa raio - ah, a sabedoria popular - e isso eu nunca quis colocar em prova.
  A chuva chegou, pousou em cima do meu telhado, abalou as estruturas, e se foi. Finalmente os estrondos acabaram e agora  o único barulho que se ouve é o das pesadas gotas remanescentes que caem do telhados e chocam-se com o chão molhado. Agora saio dessa cadeira e vou abrir a janela, deixar o vento fresco entrar calmamente refrescando-me do meu temor.

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