18.2.13

Encaracolar-me

    Hoje não acordei saltitante. Levantei-me. Vesti minhas roupas. Andei vagarosamente pela casa. Dedilhei os porta-retratos, suspirei pelo que se foi. Fiz a minha xícara de todo dia e fiquei ali, em frente à janela, repensando os assuntos inacabados e também aqueles que acabaram de forma abrupta. Algumas lágrimas preguiçosas começaram a se formar, mas  paralisaram nos cantos dos meus olhos e secaram. Fiquei ali olhando as crianças brincarem sem conseguir sentir-me equivalente àquele clima de verão.
    Terminei meu café. Peguei minhas chaves, abri o portão e saí. Fugi das buzinas e das conversas fiadas dos lugares comuns. Andei pelas ruas, sem destino confirmado. Andei procurando um lugar que me permitisse ficar absorvida em reflexões. Encontrei-me então em um lugar distante dos meus conhecidos, das obrigações, do tempo, dos olhos alheios.  Ás vezes eu sinto essas necessidades de fugir dos outros e entrar em mim mesma. Volto-me, viro dona casmurra, "encaracolo-me" apenas para entender-me e continuar meus dias.
   E assim, estou aqui. Sentada em uma praça solitária. Sentindo o vento frio passear pela minha pele. Começo a pensar em coisas que se perderam em meio às tempestades de dias passados. Brinco com algumas folhas amareladas caídas no chão. Relembro de fotografias em tons sépia de momentos felizes. Olhando para o céu cinzento começo a pensar que os deuses também sentem esse vazio que percorre meu peito - que pensamento egoísta!
  Que lugar belo! Funebremente belo com suas folhas mortas forrando o chão. É como entrar em minha própria mente. Sentir meu próprio coração, conversar com meu passado. Vasculhar o que passou e, principalmente, no que poderia ter passado. Arrepender-me. Aqui fico pensando nas vontades que ficaram jogadas em outras praças solitárias. Aqui as folhas não julgam e não perguntam. Que lugar belo!  Como o vento conforta-me. Os tons pasteis-sem-graça casam com meu dia. Não posso suportar a ideia de voltar para ruas coloridas de rosas-falsos.
   Um pássaro canta seu canto de todos os dias. Chega outro pássaro, e outro, e montam uma orquestra à minha volta, assim, sem pensar, apenas seguindo seus instintos. E depois de cansarem suas cordas vocais, batem as asas e vão para longe, perdem-se nas nuvens carregadas.  Olhando esse voo equilibrado lembro-me daquele toque que se foi. Aqueles momentos caíram do meu bolso sem ao menos dizer adeus. O toque se foi, voou para longe, como essas folhas que caem das  árvores e são levada pela brisa de outono. Distanciou-se e tornou-se invisível como os pássaros. Deixou marcada apenas a lembrança que ainda pulsa como algo vivo. Essas lembranças dispersam-se em meio ao vento que varre as formigas que vão levando as folhas caídas.
      Olho novamente para o céu. A cor cinzenta torna-se mais escura. Não há estrelas. Não consigo saber exatamente que horas são. Deixei o relógio em casa fazendo companhia para as minhas frias obrigações. Pequenas nuvens densas começam a se formar ao longe. Os pássaros parecem se esconder. O vento começa a ficar mais gelado, congelando minhas lembranças e meus pesares.  Varre os pequenos insetos. Se vão as formigas, as folhas, os pássaros e o toque. Se vai o tempo. Vejo-me então obrigada a retornar para casa, para rua alegre com suas crianças prometendo um belo futuro. Vejo-me obrigada a voltar e cumprimentar os vizinhos fofoqueiros de sorrisos amarelos. Levanto-me e saio desse lugar confortável e vou andando lerdamente, preparando-me para desencaracolar-me e voltar para rua coloridas de rosas-falsos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário