Ela morreu,
Não, não foi no sentido literal, mas isso, para meus olhos, não faz a menor diferença. Esses pobres não a verão novamente. A imagem está aqui, registrada como uma fotografia, com uma qualidade um pouco baixa, desfocada é verdade, mas está recheada de sentimentos. Na minha mente ela está sentada com seu vestido delicado, pensando em algo, distraída olhando as árvores. Eu estou olhando, delicada, a que olha as árvores. Minha fotografia mental mexe levemente como se os cabelos negros e as folhas das árvores balançassem simultaneamente, como uma orquestra ensaiada pelo vento. Ao redor tudo está parado, os carros, as ruas, as pessoas, meus olhos, seus olhos, meu coração... pobre coração! Algumas folhas pararam, pararam no ar, bem ali em frente.
Mas ela morreu, sumiu, esvaneceu, desapareceu, dissipou, expirou, partiu... Aaaaah! Gritam meus olhos, ela morreu - ela, minha imaginação, minha fotografia, minha criação,... morreu. Ok, vamos lá, ela abriu a porta, entrou e sumiu. Morreu! repetem meus olhos. Foi assim, diante dos meus olhos. Abriu a porta e não voltou - sumiu. Meus olhos lamentaram por aquele falecimento da visão. Sua imagem nasceu sentada em um banco, ainda lembro, está aqui na minha fotografia desfocada. Seus cabelos como bandeiras esvoaçando com o vento, uma imagem poética, como um soneto em forma humana, como se cada parte dissesse algo, não sensual ou coisa do tipo, mas poético como uma filosofia de tranquilidade... que tranquilidade, tudo sumiu... o mundo, eu, realidade,sobriedade. Olhei e esqueci os meus cronogramas. Fui puxada para um outro mundo apenas com um olhar -não correspondido. Ela estava ali sentada esperando alguém, pensando em algo que me escapa o conhecimento. O esperado chegou e o inesperado aconteceu: levantou com seus vestidos dançantes, abriu a porta e desfaleceu. Ainda ouço o barulho da porta batendo e levando aquele olhar que eu nunca mais encontrarei. O vento, as árvores, os cabelos, os pensamentos, a tranquilidade.... morreram. Ela bebeu sua vida, levantou-se e se foi. Eu fiquei repetindo mentalmente o poema, tentando recriar em outra forma viva a fotografia que meus olhos haviam registrado. Mas vi uma música desafinada em minha frente, sem atrativo algum... comum, uma orquestra de instrumentos desafinados. Seus cabelos, as folhas, os pássaros... ah, que imagem horrível. Esse poema humano que me perdoe, mas que construção infeliz.. Meus olhos se desviam. Chegou o que esperava- e já havia esquecido disso. Repeti os movimentos daquela que outrora fora observada. Abri a porta. Entrei. Mas não a vi... Aquela que se desfez atrás da porta.
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