O canto dos pássaros parecia estar
congelado no tempo. Os animais já não respiravam, não caminhavam, nem se
apresentavam para as árvores. Ela estava em silêncio, tentando pensar no que
estava acontecendo ultimamente (seria apenas ultimamente?). Quando realmente
tudo isso começou? Lembrava-se de que estava seguindo por um caminho, mas foi
obrigada a desviar das pedras que encontrava. Alguns desvios foram provocados por medo, outros por
preguiça, mas principalmente por se sentir incapaz de enfrentar os obstáculos
daquela estrada. Mudou tanto sua rota, observou tantos meios diferentes, que
agora já não podia continuar com seus objetivos iniciais, com seus desejos, mas
também não sabia para onde poderia ir. De repente se viu perdida, confusa. Sua
bússola já não apontava para lugar algum. Sair ou ficar parada já parecia ser
opções equivalentes. Era como se houvesse alguma magia que a obrigava a cair
sempre nessa mesma confusão. Sentia sua mente como um emaranhado de fios. Já
não sabia o começo, o fim, os desejos, as criações, as obrigações, os
instintos. Ultimamente estava ouvindo tanto o que os outros diziam que já nem sabia mais como agir, se sentia extremamente vulnerável àqueles que a cercavam. Lembrava-se de como era antigamente, ainda guardava algumas lembranças
distorcidas dos sorrisos sinceros, mas perdera a receita de como produzi-los, perdera a coragem de agir por suas próprias pernas. Enquanto caminhava, encontrava portas ao longo do caminho, mas ao abri-las e
entrar se deparava com o mesmo lugar. Não havia saída, por mais que caminhasse sempre estaria no mesmo lugar. Às vezes, o máximo que conseguia era carregar
consigo alguma teia de aranha que se enroscava em suas roupas ao andar. Era
como se estivesse sumindo, coberta, andando para o mesmo lugar, cansada e com
frio.
Desejos vãos
Eu queria ser o Mar de
altivo porte
Que ri e canta, a vastidão
imensa!
Eu queria ser a Pedra que
não pensa,
A pedra do caminho, rude e
forte!
Eu queria ser o sol, a luz
intensa
O bem do que é humilde e
não tem sorte!
Eu queria ser a árvore
tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate
da morte!
Mas o mar também chora de
tristeza...
As árvores também, como
quem reza,
Abrem, aos céus, os braços,
como um crente!
E o sol altivo e forte, ao
fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na
agonia!
E as pedras... essas...
pisá-as toda a gente!...
Florbela Espanca
Florbela Espanca
Nenhum comentário:
Postar um comentário