
Ali está um pequeno copo de cristal na mesa, em seu fundo um desprezado líquido vermelho. A janela enferrujada está aberta deixando entrar um vento forte que, passando pelos ferros decorativos, balança os braços da janela fazendo um irritante som de móveis velhos. As árvores da rua balançam violentamente tentando evitar com sofreguidão o seu desmembramento. Os pássaros escondem-se por não conseguirem voar. As nuvens se aproximam e as pessoas correm desesperadamente para casa buscando abrigo. Todos movimentando-se para evitar a tempestade. Menos a pequena Duda. Eduarda está sentada em seu quintal, entorpecida pela bebida amarga, imóvel em sua cadeira de balanço. Seus pensamentos estão letárgicos Não chora, não sorri. Apenas seu coração bate lentamente. Eduarda ali está e permanece enquanto o vento embaraça seu cabelo. As nuvens parecem pesadas, consegue pensar Eduarda... Tão pesadas... Tenta mover-se, mas não consegue, está cansada. Apenas o vento balança sua cadeira criando movimentos.
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Antigamente Eduarda corria , sorria, brindava. Eduarda vivia as coisas comuns às revistas femininas. Mas o tempo passou, as coisas passaram, as revistas mofaram e Eduarda aproximou-se do lado oposto ao desejado. Eduarda diminuiu. Agora a pequena Duda possui uma grande farmácia em seu banheiro, pequenos comprimidinhos que a mantém viva. Mas hoje a pequena Duda decidiu desligar-se das substâncias que mantinham seu corpo funcionando. Acordou com o coração apertado. Escreveu algumas cartas de adeus para aqueles que deveriam saber os motivos de seus atos. Olhou-se no espelho. Hoje Duda não passou sua maquiagem, não vestiu roupas coloridas. Hoje Duda permaneceu como estava - com seu moletom cinza.. Passou pelo corredor e não entrou no banheiro. Foi para cozinha. Pegou uma pequena faca afiada colocando-a em seu bolso. Abriu a geladeira. Pegou sua garrafa e brindou um copo de cristal com sua bebida preferida... a bebida proibida para Duda, uma droga substituta para seus comprimidos de vida e felicidade artificial. Caminhou até o sofá, sentou-se e deliciou-se de sua bebida. Decidiu ir para fora sentar-se em sua cadeira de balanço. Levantou e pousou o copo no centro da mesa, e foi a passos lentos para sua cadeira.
La fora o tempo estava nublado, o tilintar de seus apetrechos de teto soavam com o vento que se aproximava. Sentou-se e alguns segundos depois os antigos pensamentos indesejáveis começaram a invadir sua mente. Eduarda sentiu-se novamente diminuir, seu corpo começou a ficar pesado como as nuvens que se aproximavam. Começou então um forte vento anunciando uma tempestade, as pessoas começaram a correr para suas casas. E ali ficou Duda.
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O vento empurra cada vez mais o copo largado na mesa, aproximando-o da beirada. Duda sente-se tão pesada que mal consegue tirar a faca afiada que havia escondido no bolso de seu moletom. Olha para aquele objeto brilhante, passa levemente o dedo na lâmina e uma gotícula vermelha se forma no delicado dedo de menina.
O vento torna-se cada vez mais forte. Na rua apenas o balançar desesperado das árvores lutando para manter-se intactas. O céu está negro como se tentasse tornar-se noite. Uma rajada entra na casa quebrando os braços da janela. Cospe o copo para o chão estilhaçando-o contra o piso amarelo, espalhando seu líquido vermelho.
Duda aponta a faca para seu pulso. Com as mãos enfraquecidas força a entrada da lâmina contra a sua carne. O sangue sai como uma correnteza pela abertura da pele, desenhando rios em suas mãos, escorrendo para o chão, formando uma poça. A faca cai no chão manchada.
O sangue permanece escorrendo, espalhando-se e juntando-se com a chuva. A cadeira permanece embalando o pequeno corpo vazio. Uma folha é arrancada da árvore e vem empurrada em direção ao corpo mórbido jogado na cadeira, bate no peito do espectro e cai em seu colo. Os olhos de Eduarda já não se movem mais... Já não há mais a pequena Duda. Apenas o vento continua a balançar ninando o corpo vazio.
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