6.5.12

Amargo exagerado


Não, eu não quero sair daqui...
Gosto do meu quarto quente com sua escuridão uterina protegendo-me dos acontecimentos. Aqui dentro não importa muito os movimentos que eu faça, nem o que corre à minha volta. É como se eu perdesse os sentidos da dimensão de responsabilidades, das contas matemáticas... de mim.
Há alguns corpos sem formas passando lá fora, crianças que voltam da escola e gritam alguma coisa que me chega distorcida. Sinto medo de sair daqui, como se fosse ser recebida com espadas. Não há nada para me proteger lá fora. O medo é o meu maior protetor, deixando minhas pernas sem ações, fazendo-me esquecer por alguns momentos que eu não deveria estar aqui me esquivando da vida. 
Em meio aos delírios e à garganta estrangulada, a qual não deixa nenhuma palavra sair, um rio invade meu quarto devastando tudo à sua volta, mas eu ainda estou aqui, boiando no meio de seus movimentos... Não quero sair. Fugir desse lugar seria como a sensação de estar enrolada em uma coberta e ter que sair para enfrentar o frio e as obrigações. Estou sem força para enfrentar as coisas... Mas chegará uma hora em que a necessidade baterá a minha porta e me expulsará daqui ou morrerei presa à inércia que esse lugar me proporciona.

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